A AMAZONA E O CAMPONÊS
A tarde findava sem muitas novidades. O mormaço daquele dia,
quando se experimentou temperaturas acima dos trinta e oito graus, dava sinais
aos viventes de que necessitariam se resguardar à sombra, porque o sol não
pretendia descansar. Sem vento ou mesmo uma brisa suave, as árvores à beira do
Rio Poty dormitavam prolongando a sesta, preguiçosamente esperando a tarde se
arrastar, alongando as horas. Longe, o asfalto parecia está submerso e da fina
lâmina de água subia um vapor tremulante.
À margem do caudaloso rio, por um caminho sinuoso, um
camponês seguia apressado. Precisava dar um recado e achou melhor não selar o
seu cavalo pangaré. Resolveu que correndo chegaria mais cedo. Era esguio, mas
forte. Assim saiu a trotar em passos rápidos, cadenciados, pelas pradarias
cercadas de gameleiras, carnaubeiras e moitas de bambus.
Enquanto olhava a beleza das águas e das plantas, corria os
olhos no chão recoberto de capim nativo e pisoteado, escolhendo melhor o lugar
de pisar a cada passada. Levantava a cabeça para ver no horizonte, esperando
ver o levantar de voo das jaçanãs e nambus, estas costumadas a pregar peças nos
distraídos, arrancando com barulho de asas a bater freneticamente a cada decolada.
Em sua viagem, quase passeio, divagava entre a paisagem bela à sua frente e à
tarefa de correr. Seriam quarenta minutos até o destino.
Surgiu na linha do horizonte, à sua frente, o vulto de dois
cavalos e sobre eles uma jovem amazona e um estranho cavaleiro. O tempo foi
curto. Os animais não relinchavam, não abanavam o rabo, só corriam velozes. Seu
coração acelerou. Viu os animais de corpos magros e brilhantes, guiados por
rédeas firmes, de cabrestos curtos, avançarem em sua direção. A mulher usava
uma espécie de chapéu coco reluzente atado ao seu lindo queixinho formoso e
seus olhos surgiam vivos sob a estranha cobertura.
O camponês estacou o pensamento sem parar de correr. Era ela
mesma, a musa de seus sonhos. Tinha certeza. O perfil inconfundível, o falar
serelepe, o sorriso das deusas.
Mas no átimo em que cruzou com o corredor, virou o rosto
para o companheiro e disse qualquer coisa ininteligível. Ignorou ou não viu o
pobre homem que ao lado se arrastava na grama. O coração camponês disparou como
se do trote passasse a um sprint,
detonando em pace de tiros. Tentou
equilibrar a inspiração ao passo, tudo em vão.
A amazona se foi, gloriosa, galopando em sua montaria na
forma de bólido enquanto o pobre homem seguia cabisbaixo. Recompôs as forças,
relaxou os braços, mudou a extensão e a quantidade das passadas.
Mais sossegado, lembrou-se que estava só, ele, a mata e o
rio. Alegrou-se quando a amazona fez meia volta retornando em sua direção. Em
velocidade gritou o seu nome, que se perdeu no verdejante gramado. Agora
disparou de verdade, detonando numa corrida louca, embalado pelo sorriso da
mulher sonhada e no ritmo do seu coração. Por um instante achou que o mundo
renascia para ele. Mas foi apenas o seu nome que ela gritou. O nome de um
camponês a vagar pelas pradarias à beira do Poty. Desiludido, viu as bicicletas
sumirem de uma vez para nunca mais voltar.
O corredor, acordado dos devaneios próprios dos longos
treinos, retornou ao seu mundo. A grande pradaria deu lugar ao asfalto quente e
as carnaúbas eram postes de cimento. O
calor amolecera seus miolos e precisava seguir o seu treino impassível. Nada mais
poderia lhe tirar a concentração. Nem mesmo a linda mulher, que banhara nadando
num lago e agora corria em sua direção, sem cavalo e sem byke.
Mas o rapaz não viu mais ninguém.