Por Altevir Esteves, do Centro Espírita Lar da Caridade
Getulio Vargas iniciaria o ano de 1951 à frente do Executivo Nacional, com seu vacilante e polêmico mandato, em meio ao clima de desconfiança face à ditadura implantada em seu governo anterior. No Piauí, Pedro de Almendra Freitas igualmente assumiria o poder no nascer do ano vindouro, abrindo caminho para a oligarquia da qual foi o patriarca. O nordeste sofria uma grande seca, tornando-se mais um desafio para o já temerário governo Vargas, que dividia-se nos desafios de combater a fome no semi-árido, explorar petróleo em território nacional e escapar das manobras políticas dos adversários. Em Teresina, João Mendes Olimpio de Melo, filho do Matias Olimpio, ex-Juiz de Direito, governador e senador pelo Piauí, fora eleito prefeito municipal.
Havia apenas 19 anos que o Espírito Emanuel apresentara-se ao médium Chico Xavier, em Pedro Leopoldo-MG, dando início ao valoroso serviço psicográfico, já tendo sido produzidos 50 ótimos livros, iniciando com Parnaso de Além Túmulo, de 1932, incluindo obras esclarecedoras e de linguagem acessível sobre a vida no plano espiritual, como é o caso do livro Nosso Lar, do espírito André Luiz.
Dez anos haviam se passado desde a reforma do Código Penal (1940), que deixou de criminalizar formalmente a prática do Espiritismo, fardo pesado que a Doutrina sofria no Brasil desde a Proclamação da República, motivo de ataques violentos da imprensa, incrédulos e opositores de toda a espécie, servindo ainda de motivação para divergências entre os seguidores. Durante o período da marginalização dos cultos do gênero, criou-se a figura do “baixo espiritismo”, para separar as práticas não kardecistas ou científicas.
Naquele ano de 1950 a Caravana da Fraternidade, excursão nacional liderada por Leopoldo Machado, da Federação Espírita Brasileira, passou por nosso estado com a finalidade de unificar as casas espíritas, até então poucas e esparsas. O Piauí contava com apenas sete Centros de Estudos entre capital e interior.
No nosso estado daquela época, falar na Doutrina fora dos centros e mesas de estudo era entregar-se ao ridículo, sob a égide da blasfêmia e do satanismo. O mundo das igrejas ditas cristãs não divergia espiritismo, candomblé, macumba, ocultismo, magia negra e similares, cultos afros, etc. sendo normal fiéis fazerem o sinal da cruz ao passar em frente a uma Casa Espírita, como meio de proteger-se do “mal”.
Fazer trabalho mediúnico era “estar com o diabo nos couros”; o termo “desobsessão” não era tão conhecido e as manifestações do gênero eram combatidas com surras penosas e mergulhos em soluções de ervas diversas, como meio de expulsar os demônios. Na Bahia as manhãs de sábado eram marcadas pela presença de galinhas mortas em meio a álcool e fumo nos cruzamentos das cidades.
A Federação foi instalada no Piauí em 27 de novembro de 1950. Os pioneiros, entre coragem e inspiração divina, deram início a um trabalho árduo, mas próspero. O gigantismo da unidade da federação, os caminhos difíceis e demorados a serem percorridos não foram obstáculos intransponíveis.
Vencer é triunfar diante de alguma coisa. Vencer quando o medo e a desconfiança é a cortina que separa o trabalhador do objetivo, é triunfo só permitido sob a luz de Algo Maior, de um brilho que somente o Pai e Mestre Jesus pode emitir.
A semente vingou. Hoje temos 32 Casas na Capital e igual número no interior, presentes em 17 cidades. E temos muito ainda o que fazer, diante dos mais de 200 municípios sem estabelecimentos de assistência.
Em Brasília os governos entram e saem sob a mesma desconfiança de sempre; na política as oligarquias se entreolham com o sindicalismo pelego, de braços dados com o fiasco corrupto que nasce na Capital Federal; a seca ainda perturba os nordestinos. Mas as centelhas divinas iluminadas trafegam ininterruptamente pelas camadas sociais, descortinando as esferas de além túmulo. Falar de Alan Kardec, Chico Xavier e André Luiz, já não é motivo de rejeição na maioria das rodas. Não é raro pessoas que, mesmo não se declarando espíritas, se dizem ter encontrado na Doutrina as respostas para as perguntas que tanto lhes perturbaram até então.
“Estou precisando de um passe” virou frase corriqueira, como quem diz “tou precisando tomar um banho morno”. Uma nova onda de amor e respeito invade as pessoas, lhes direcionando para novos rumos, em busca de sua evolução moral, não obstante as notícias negativas que turbinam ambiciosamente os índices de audiência dos meios de comunicação.
Temos muito o que fazer. A tarefa é árdua, mas generosa. Que venham outros 60 anos, outras secas, outros tempos, outros mundos. A FEPI estará de portas abertas.
domingo, 28 de agosto de 2011
domingo, 14 de agosto de 2011
Trote leve
O Trote Leve
Altevir Esteves (*)
Bate no rosto uma brisa
Um pé bate no chão.
Uma música chega aos ouvidos,
Endorfina no coração.
Um pé, outro pé,
Ruas, estradas, pontes
Pulsa, bate, lateja, trafega
Olho vivo, horizontes.
Passa mato verde,
Gostoso cheiro rural
Animais trafegam a esmo
Tudo ao natural.
Um gole de água,
Outro de isotônico,
Um pé, outro pé,
Areja pulmão biônico.
Passa o carro, a moto
Veloz o caminhão.
Um pé, outro pé,
Bate firme no chão.
Ritmo frenético
Música, cadência
Um pé, outro pé,
Explica isto, ciência!
*) Altevir Esteves é escritor, poeta e romancista, com cinco livros publicados, membro das Academias de Letras de Parnaíba e de Alto-Longá-PI
Altevir Esteves (*)
Bate no rosto uma brisa
Um pé bate no chão.
Uma música chega aos ouvidos,
Endorfina no coração.
Um pé, outro pé,
Ruas, estradas, pontes
Pulsa, bate, lateja, trafega
Olho vivo, horizontes.
Passa mato verde,
Gostoso cheiro rural
Animais trafegam a esmo
Tudo ao natural.
Um gole de água,
Outro de isotônico,
Um pé, outro pé,
Areja pulmão biônico.
Passa o carro, a moto
Veloz o caminhão.
Um pé, outro pé,
Bate firme no chão.
Ritmo frenético
Música, cadência
Um pé, outro pé,
Explica isto, ciência!
*) Altevir Esteves é escritor, poeta e romancista, com cinco livros publicados, membro das Academias de Letras de Parnaíba e de Alto-Longá-PI
sexta-feira, 12 de agosto de 2011
Morre mais um atleta na Raul Lopes
Faleceu mais um atleta na Av. Raul Lopes, zona leste de Teresina. José Ambrósio, mais conhecido por Zé Pé-de-Vento, corria pelo asfalto no sentido UFPI/Riverside quando um motorista não identificado, que há pouco tempo estacionara seu veículo, abriu repentinamente a porta criando uma barreira para o corredor. Ambrósio, que segundo testemunhas, praticava “tiros” – modalidade de treino de alta velocidade – chocou-se violentamente contra a porta, deslocando o eixo de sua cervical e esfacelando o fígado e pâncreas.
A ambulância do SAMU chegou em trinta minutos, mas já era tarde. A vítima, embora socorrido por profissionais da saúde que por ali também praticavam o esporte, não resistiu aos ferimentos e teve óbito no local.
Ambrósio já corria há três anos. Antes era obeso e hipertenso, com histórico de diabetes na família. Vendo encurtar a sua vida, já corroída pelo cigarro dos tempos de moço, procurou o asfalto para afastar seus dilemas. Conhecido nos grupos de corredores e eventos da espécie na cidade, era respeitado pela sua performance e pela sua simpatia, sempre querendo ajudar aos novos praticantes.
Ambrósio conseguiu safar-se das doenças capituladas no código da OMS. Órfão de pai e mãe, fugiu das drogas e do álcool; mas não escapou da negligência dos órgãos públicos que deveriam cuidar do esporte e do lazer dos teresinenses.
Pé-de-Vento foi sepultado no Cemitério Renascença. O clima era de dor e revolta. “Quem será o próximo?” era a pergunta que os atletas que acompanhavam o cortejo faziam entre si.
*********************************
Calma, leitor/corredor. Não adianta tentar saber quem era esse José Ambrósio. O episódio é fictício e serve apenas para ilustrar o tamanho do problema que se apresenta aos atletas e demais pessoas que almejam mais saúde através da prática esportiva em Teresina.
Há poucos anos, quando foi construído o calçadão da Raul Lopes, os caminheiros se perdiam ao longo dos dois quilômetros da avenida. Eram poucos e mal orientados. A Classe A, já abastada em sua mesa, foi a primeira a procurar exercitar o corpo como forma de sumir com as gorduras e altas taxas de triglicérides socadas em seu corpo, a troca de homéricas farras nos restaurantes da cidade. Aconselhados pelos cardiologistas, do tipo “ou você faz isso ou morre”, os cidadãos procuraram academias e ruas. Seguiram-se as classes B e C. Hoje, todos que têm resolvido a questão alimentícia na forma quantitativa, procuram alguma maneira de exercitar-se, ou se enfiam em hospitais, clínicas e laboratórios, em busca de soluções médicas para problemas físicos e nutricionais.
E as ruas ficaram pequenas. Teresina não dispõe de parques, praias, ginásios etc. para a prática esportiva, sobretudo a caminhada e corridas. Nossos atletas – estimam-se mais de mil – percorrem ruas e avenidas, desviando-se do trânsito cada vez mais caótico.
As poucas tentativas de disciplinar o estacionamento na Raul Lopes resultou em nada. Colocaram cones para proteger os corredores. Resultado inverso: os corredores foram obrigados a seguir pela primeira pista. Pior: alguns motoristas estacionam em “fila dupla”, a guisa de esperar por alguém que TA correndo, obrigando o atleta a correr pela pista central da avenida. Que coisa!
Estacionar em fila dupla é ato punido com multa e remoção do veículo, segundo o Código de Trânsito Brasileiro, art. 181, XI. Colocar cones na rua e ninguém para punir os infratores é perda de tempo. Coloque-se ali uma placa de “proibido estacionar” e um reboque da STRANS de prontidão, que quero ver!
Temos agora uma ótima oportunidade. A Poticabana vai ser reconstruída. Por que não criar ali uma pista de atletismo? Isto não é caro, garanto. Pode ser feita mesmo de barro bem batido – ideal – desde que bem compactada e plana. Poderia ampliar o Calçadão em sua largura, criando faixa para corredores; Sugerimos também fechar um lado inteiro da Avenida Raul Lopes, das seis às oito da manhã e das 17h00minh às 20h00minh, como se faz em algumas cidades brasileiras.
Apelamos para as autoridades municipais e estaduais. Algo precisa ser feito, e já. Do contrário, algum José Ambrósio de verdade pode estampar o noticiário policial de nossos jornais.
E ele passará à posteridade como um mártir do atletismo piauiense.
(*) Altevir Esteves é advogado, escritor, maratonista e coordenador do Grupo Ghepards, Instinto Corredor; Membro das Academias de Letras de Parnaiba e de Alto-longá;
A ambulância do SAMU chegou em trinta minutos, mas já era tarde. A vítima, embora socorrido por profissionais da saúde que por ali também praticavam o esporte, não resistiu aos ferimentos e teve óbito no local.
Ambrósio já corria há três anos. Antes era obeso e hipertenso, com histórico de diabetes na família. Vendo encurtar a sua vida, já corroída pelo cigarro dos tempos de moço, procurou o asfalto para afastar seus dilemas. Conhecido nos grupos de corredores e eventos da espécie na cidade, era respeitado pela sua performance e pela sua simpatia, sempre querendo ajudar aos novos praticantes.
Ambrósio conseguiu safar-se das doenças capituladas no código da OMS. Órfão de pai e mãe, fugiu das drogas e do álcool; mas não escapou da negligência dos órgãos públicos que deveriam cuidar do esporte e do lazer dos teresinenses.
Pé-de-Vento foi sepultado no Cemitério Renascença. O clima era de dor e revolta. “Quem será o próximo?” era a pergunta que os atletas que acompanhavam o cortejo faziam entre si.
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Calma, leitor/corredor. Não adianta tentar saber quem era esse José Ambrósio. O episódio é fictício e serve apenas para ilustrar o tamanho do problema que se apresenta aos atletas e demais pessoas que almejam mais saúde através da prática esportiva em Teresina.
Há poucos anos, quando foi construído o calçadão da Raul Lopes, os caminheiros se perdiam ao longo dos dois quilômetros da avenida. Eram poucos e mal orientados. A Classe A, já abastada em sua mesa, foi a primeira a procurar exercitar o corpo como forma de sumir com as gorduras e altas taxas de triglicérides socadas em seu corpo, a troca de homéricas farras nos restaurantes da cidade. Aconselhados pelos cardiologistas, do tipo “ou você faz isso ou morre”, os cidadãos procuraram academias e ruas. Seguiram-se as classes B e C. Hoje, todos que têm resolvido a questão alimentícia na forma quantitativa, procuram alguma maneira de exercitar-se, ou se enfiam em hospitais, clínicas e laboratórios, em busca de soluções médicas para problemas físicos e nutricionais.
E as ruas ficaram pequenas. Teresina não dispõe de parques, praias, ginásios etc. para a prática esportiva, sobretudo a caminhada e corridas. Nossos atletas – estimam-se mais de mil – percorrem ruas e avenidas, desviando-se do trânsito cada vez mais caótico.
As poucas tentativas de disciplinar o estacionamento na Raul Lopes resultou em nada. Colocaram cones para proteger os corredores. Resultado inverso: os corredores foram obrigados a seguir pela primeira pista. Pior: alguns motoristas estacionam em “fila dupla”, a guisa de esperar por alguém que TA correndo, obrigando o atleta a correr pela pista central da avenida. Que coisa!
Estacionar em fila dupla é ato punido com multa e remoção do veículo, segundo o Código de Trânsito Brasileiro, art. 181, XI. Colocar cones na rua e ninguém para punir os infratores é perda de tempo. Coloque-se ali uma placa de “proibido estacionar” e um reboque da STRANS de prontidão, que quero ver!
Temos agora uma ótima oportunidade. A Poticabana vai ser reconstruída. Por que não criar ali uma pista de atletismo? Isto não é caro, garanto. Pode ser feita mesmo de barro bem batido – ideal – desde que bem compactada e plana. Poderia ampliar o Calçadão em sua largura, criando faixa para corredores; Sugerimos também fechar um lado inteiro da Avenida Raul Lopes, das seis às oito da manhã e das 17h00minh às 20h00minh, como se faz em algumas cidades brasileiras.
Apelamos para as autoridades municipais e estaduais. Algo precisa ser feito, e já. Do contrário, algum José Ambrósio de verdade pode estampar o noticiário policial de nossos jornais.
E ele passará à posteridade como um mártir do atletismo piauiense.
(*) Altevir Esteves é advogado, escritor, maratonista e coordenador do Grupo Ghepards, Instinto Corredor; Membro das Academias de Letras de Parnaiba e de Alto-longá;
JUMENTOS MODERNOS
Altevir Esteves
Quando eu era criança, morávamos em um sítio. Dito bem. Não era uma chácara, dessas que os ricos costumam usar para passar final de semana. Era mesmo sítio, desses de produção rural de subsistência, dos pronafianos de hoje em dia, que perambulam entre sindicatos e bancos oficiais à procura de crédito.
Na tal propriedade tínhamos um jumento. Isto mesmo. Gobila, jegue, burrico e mais um monte de nomes que esses bichos têm. O nosso se chamava “Russim”, porque o animal tinha um pelo avermelhado e nos lembrava o povo do leste europeu, isto porque um parente, da única vez em que abriu uma revista nacional, viu um homem com aquela cor de cabelo.
Mas Russim era jumento mesmo. Um asinino, não um ser de pouca inteligência, baixo QI. Ao contrário, o animal dava lições de cálculo, de simpatia, de lealdade e de carinho para com os donos. Carregado com dois enormes jacás de pequis, peso superior ao adequado para sua estrutura, caminhava por quilômetros, ladeira acima, ladeira abaixo. Jamais deixava sua carga enroscar em galho de árvores pelo caminho. Se lhe abrissem uma porteira estreita, o jumento sequer tentava transpô-la, pois sabia que os jacás, surrões e lenha ficariam entalados entre os portais. Não. Russim calculava distâncias e larguras e comparava com seu volume, com o sem carga.
Russim era o único animal de serviço do sítio. E como tal, fazia de tudo: montaria, para carregar todo tipo de tralha, como madeira para a cerca, lenha pro fogão, pequis catados na capoeira, cana-de-açúcar e, pasme, até mandacaru, usados para fazer cerca viva. E põe viva nisso!
E para tanto serviço e obediência, o que Russim ganhava? Nada de comida. Tinha o direito de comer amarrado num pé de caju, aparando as poucas ramagens que por lá brotavam. Corda curta, não permitia maiores pastos. E quando longa, Russim se enroscava na corda, enrolava-se todo, terminando quase sempre preso, imobilizado. Mas mesmo que escapasse partindo o cabresto, ele não destruía plantações, apenas comia capins e coisas secas.
Para as chapadas à cata de pequis, saíamos as quatro da matina. Colocávamos a cangalha e os dois enormes jacás sobre o animal. O mais novo dos irmãos ainda tinha o direito de ir montado. Aos poucos íamos juntando os frutos caídos sob as árvores. Um a um, jogando alternadamente nos jacás, para equilibrar o peso.
Ao meio dia parávamos para almoçar, se é que aquilo poderia ser chamado de refeição. Dois ovos de galinha, um para cada um de nós, a ser devorado com bons punhados de farinha de mandioca. Farinha seca, como a conhecíamos. Dali mesmo, no chão, minha irmã pedia que eu fosse tirando, aos poucos, os frutos da carga. Ela descascava cada um, fazendo retornar o fruto para os jacás. Assim se reduzia o volume para ganhar no peso. Russim esperava de pé, comendo fiapos miúdos de grama braba.
E voltávamos à cata, até encher os vasilhames com pequis, com e sem casca. Peso terrível. Ao sinal, Russim rumava para o Sítio. Nós, cansados do dia, esfomeados, não acompanhávamos os seus passos. Russim sabia exatamente o caminho. Não parava, não hesitava nas encruzilhadas. Apenas gemia baixinho ante o peso brutal. Nós dávamos passos apressados, pequenos piques, mas de novo ficávamos para trás.
Ao chegar ao Sítio, Russim esperava um pouco e, como ninguém chegava para abrir o portão de madeira, tampouco nós estávamos por perto, ele simplesmente se deitava com carga e tudo, num último apelo para o descanso.
Um dia de domingo, não tínhamos viagem para a chapada. Os pequis, por aquele ano, rarearam tanto que já não compensava a viagem. O animal não foi aprisionado, encangalhado. Continuou à solta, livre. E assim passou o dia.
À tardinha, minha mãe foi a uma rocinha de feijão que foi plantando no final do terreno. Não era muito. Mas tava uma beleza, enramando por toda parte, soltando canivetes para aqui e para acolá. Algumas vagens já eram vistas como promessa de um bom almoço daquele inverno. Naquele dia minha mãe alimentava a esperança de catar algumas delas para comer aferventado, com pouca farinha e uma colher de azeite.
Ao dobrar a última curva do caminho, o choque. Que visão avassaladora! Minha mãe não acreditava no que via, embora estivesse tudo presente, à sua cara. Do plantio de feijão havia apenas restolhos mastigados, folhas caídas, perdidas. Invasão de animais do vizinho, só podia ser. Corrigiu a cerca ao redor, tudo perfeito. Rastros, só de um animal. Acompanhou as pegadas, contornou uma mangueira moça e viu o criminoso. Russim, de barriga enorme, dormiu o sono dos justos, dos jumentos justos.
Para Russim estava tudo bem feito. Trabalhara bravamente, achara uma comida recompensadora. Não iria mais importar-se com objeções e pensamentos alheios. Estava farto, da paciência e do bucho.
Daquele dia em diante Russim se deu por vencido e vencedor. Não seguia mais firmemente aquele que lhe puxasse o cabresto. Demorava a levantar-se mesmo que puxado ou empurrado, batido de cipó. Não ligava, não dava a mínima. Aquela tinha sido sua última colheita de pequis. Aos poucos Russim não foi mais chamado para a labuta, mesmo que houvesse serviços. Estava cansado. Alguns meses depois amanheceu estirado, sem vida, naquele mesmo lugar em que dormiu saciado de ramagens de feijão.
Eu, jumento Russim da modernidade, agüento calado a minha carga. Sabe Deus até quando. Um dia me soltarei e violarei as regras, simplesmente para descansar. Antes que seja tarde.
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