sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Morre mais um atleta na Raul Lopes

Faleceu mais um atleta na Av. Raul Lopes, zona leste de Teresina. José Ambrósio, mais conhecido por Zé Pé-de-Vento, corria pelo asfalto no sentido UFPI/Riverside quando um motorista não identificado, que há pouco tempo estacionara seu veículo, abriu repentinamente a porta criando uma barreira para o corredor. Ambrósio, que segundo testemunhas, praticava “tiros” – modalidade de treino de alta velocidade – chocou-se violentamente contra a porta, deslocando o eixo de sua cervical e esfacelando o fígado e pâncreas.

A ambulância do SAMU chegou em trinta minutos, mas já era tarde. A vítima, embora socorrido por profissionais da saúde que por ali também praticavam o esporte, não resistiu aos ferimentos e teve óbito no local.

Ambrósio já corria há três anos. Antes era obeso e hipertenso, com histórico de diabetes na família. Vendo encurtar a sua vida, já corroída pelo cigarro dos tempos de moço, procurou o asfalto para afastar seus dilemas. Conhecido nos grupos de corredores e eventos da espécie na cidade, era respeitado pela sua performance e pela sua simpatia, sempre querendo ajudar aos novos praticantes.

Ambrósio conseguiu safar-se das doenças capituladas no código da OMS. Órfão de pai e mãe, fugiu das drogas e do álcool; mas não escapou da negligência dos órgãos públicos que deveriam cuidar do esporte e do lazer dos teresinenses.

Pé-de-Vento foi sepultado no Cemitério Renascença. O clima era de dor e revolta. “Quem será o próximo?” era a pergunta que os atletas que acompanhavam o cortejo faziam entre si.

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Calma, leitor/corredor. Não adianta tentar saber quem era esse José Ambrósio. O episódio é fictício e serve apenas para ilustrar o tamanho do problema que se apresenta aos atletas e demais pessoas que almejam mais saúde através da prática esportiva em Teresina.

Há poucos anos, quando foi construído o calçadão da Raul Lopes, os caminheiros se perdiam ao longo dos dois quilômetros da avenida. Eram poucos e mal orientados. A Classe A, já abastada em sua mesa, foi a primeira a procurar exercitar o corpo como forma de sumir com as gorduras e altas taxas de triglicérides socadas em seu corpo, a troca de homéricas farras nos restaurantes da cidade. Aconselhados pelos cardiologistas, do tipo “ou você faz isso ou morre”, os cidadãos procuraram academias e ruas. Seguiram-se as classes B e C. Hoje, todos que têm resolvido a questão alimentícia na forma quantitativa, procuram alguma maneira de exercitar-se, ou se enfiam em hospitais, clínicas e laboratórios, em busca de soluções médicas para problemas físicos e nutricionais.

E as ruas ficaram pequenas. Teresina não dispõe de parques, praias, ginásios etc. para a prática esportiva, sobretudo a caminhada e corridas. Nossos atletas – estimam-se mais de mil – percorrem ruas e avenidas, desviando-se do trânsito cada vez mais caótico.

As poucas tentativas de disciplinar o estacionamento na Raul Lopes resultou em nada. Colocaram cones para proteger os corredores. Resultado inverso: os corredores foram obrigados a seguir pela primeira pista. Pior: alguns motoristas estacionam em “fila dupla”, a guisa de esperar por alguém que TA correndo, obrigando o atleta a correr pela pista central da avenida. Que coisa!

Estacionar em fila dupla é ato punido com multa e remoção do veículo, segundo o Código de Trânsito Brasileiro, art. 181, XI. Colocar cones na rua e ninguém para punir os infratores é perda de tempo. Coloque-se ali uma placa de “proibido estacionar” e um reboque da STRANS de prontidão, que quero ver!

Temos agora uma ótima oportunidade. A Poticabana vai ser reconstruída. Por que não criar ali uma pista de atletismo? Isto não é caro, garanto. Pode ser feita mesmo de barro bem batido – ideal – desde que bem compactada e plana. Poderia ampliar o Calçadão em sua largura, criando faixa para corredores; Sugerimos também fechar um lado inteiro da Avenida Raul Lopes, das seis às oito da manhã e das 17h00minh às 20h00minh, como se faz em algumas cidades brasileiras.

Apelamos para as autoridades municipais e estaduais. Algo precisa ser feito, e já. Do contrário, algum José Ambrósio de verdade pode estampar o noticiário policial de nossos jornais.

E ele passará à posteridade como um mártir do atletismo piauiense.

(*) Altevir Esteves é advogado, escritor, maratonista e coordenador do Grupo Ghepards, Instinto Corredor; Membro das Academias de Letras de Parnaiba e de Alto-longá;

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