sexta-feira, 12 de agosto de 2011

JUMENTOS MODERNOS


Altevir Esteves

Quando eu era criança, morávamos em um sítio. Dito bem. Não era uma chácara, dessas que os ricos costumam usar para passar final de semana. Era mesmo sítio, desses de produção rural de subsistência, dos pronafianos de hoje em dia, que perambulam entre sindicatos e bancos oficiais à procura de crédito.
Na tal propriedade tínhamos um jumento. Isto mesmo. Gobila, jegue, burrico e mais um monte de nomes que esses bichos têm. O nosso se chamava “Russim”, porque o animal tinha um pelo avermelhado e nos lembrava o povo do leste europeu, isto porque um parente, da única vez em que abriu uma revista nacional, viu um homem com aquela cor de cabelo.
Mas Russim era jumento mesmo. Um asinino, não um ser de pouca inteligência, baixo QI. Ao contrário, o animal dava lições de cálculo, de simpatia, de lealdade e de carinho para com os donos. Carregado com dois enormes jacás de pequis, peso superior ao adequado para sua estrutura, caminhava por quilômetros, ladeira acima, ladeira abaixo. Jamais deixava sua carga enroscar em galho de árvores pelo caminho. Se lhe abrissem uma porteira estreita, o jumento sequer tentava transpô-la, pois sabia que os jacás, surrões e lenha ficariam entalados entre os portais. Não. Russim calculava distâncias e larguras e comparava com seu volume, com o sem carga.
Russim era o único animal de serviço do sítio. E como tal, fazia de tudo: montaria, para carregar todo tipo de tralha, como madeira para a cerca, lenha pro fogão, pequis catados na capoeira, cana-de-açúcar e, pasme, até mandacaru, usados para fazer cerca viva. E põe viva nisso!
E para tanto serviço e obediência, o que Russim ganhava? Nada de comida. Tinha o direito de comer amarrado num pé de caju, aparando as poucas ramagens que por lá brotavam. Corda curta, não permitia maiores pastos. E quando longa, Russim se enroscava na corda, enrolava-se todo, terminando quase sempre preso, imobilizado. Mas mesmo que escapasse partindo o cabresto, ele não destruía plantações, apenas comia capins e coisas secas.
Para as chapadas à cata de pequis, saíamos as quatro da matina. Colocávamos a cangalha e os dois enormes jacás sobre o animal. O mais novo dos irmãos ainda tinha o direito de ir montado. Aos poucos íamos juntando os frutos caídos sob as árvores. Um a um, jogando alternadamente nos jacás, para equilibrar o peso.
Ao meio dia parávamos para almoçar, se é que aquilo poderia ser chamado de refeição. Dois ovos de galinha, um para cada um de nós, a ser devorado com bons punhados de farinha de mandioca. Farinha seca, como a conhecíamos. Dali mesmo, no chão, minha irmã pedia que eu fosse tirando, aos poucos, os frutos da carga. Ela descascava cada um, fazendo retornar o fruto para os jacás. Assim se reduzia o volume para ganhar no peso. Russim esperava de pé, comendo fiapos miúdos de grama braba.
E voltávamos à cata, até encher os vasilhames com pequis, com e sem casca. Peso terrível. Ao sinal, Russim rumava para o Sítio. Nós, cansados do dia, esfomeados, não acompanhávamos os seus passos. Russim sabia exatamente o caminho. Não parava, não hesitava nas encruzilhadas. Apenas gemia baixinho ante o peso brutal. Nós dávamos passos apressados, pequenos piques, mas de novo ficávamos para trás.
Ao chegar ao Sítio, Russim esperava um pouco e, como ninguém chegava para abrir o portão de madeira, tampouco nós estávamos por perto, ele simplesmente se deitava com carga e tudo, num último apelo para o descanso.
Um dia de domingo, não tínhamos viagem para a chapada. Os pequis, por aquele ano, rarearam tanto que já não compensava a viagem. O animal não foi aprisionado, encangalhado. Continuou à solta, livre. E assim passou o dia.
À tardinha, minha mãe foi a uma rocinha de feijão que foi plantando no final do terreno. Não era muito. Mas tava uma beleza, enramando por toda parte, soltando canivetes para aqui e para acolá. Algumas vagens já eram vistas como promessa de um bom almoço daquele inverno. Naquele dia minha mãe alimentava a esperança de catar algumas delas para comer aferventado, com pouca farinha e uma colher de azeite.
Ao dobrar a última curva do caminho, o choque. Que visão avassaladora! Minha mãe não acreditava no que via, embora estivesse tudo presente, à sua cara. Do plantio de feijão havia apenas restolhos mastigados, folhas caídas, perdidas. Invasão de animais do vizinho, só podia ser. Corrigiu a cerca ao redor, tudo perfeito. Rastros, só de um animal. Acompanhou as pegadas, contornou uma mangueira moça e viu o criminoso. Russim, de barriga enorme, dormiu o sono dos justos, dos jumentos justos.
Para Russim estava tudo bem feito. Trabalhara bravamente, achara uma comida recompensadora. Não iria mais importar-se com objeções e pensamentos alheios. Estava farto, da paciência e do bucho.
Daquele dia em diante Russim se deu por vencido e vencedor. Não seguia mais firmemente aquele que lhe puxasse o cabresto. Demorava a levantar-se mesmo que puxado ou empurrado, batido de cipó. Não ligava, não dava a mínima. Aquela tinha sido sua última colheita de pequis. Aos poucos Russim não foi mais chamado para a labuta, mesmo que houvesse serviços. Estava cansado. Alguns meses depois amanheceu estirado, sem vida, naquele mesmo lugar em que dormiu saciado de ramagens de feijão.
Eu, jumento Russim da modernidade, agüento calado a minha carga. Sabe Deus até quando. Um dia me soltarei e violarei as regras, simplesmente para descansar. Antes que seja tarde.

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